Uma causa de aborto que quase ninguém investiga
Quando o assunto é aborto, o produtor logo pensa em leptospirose ou brucelose. Mas existe uma causa importante e muito subdiagnosticada: a neosporose, causada por um protozoário (Neospora caninum). Ela derruba prenhez, gera bezerros fracos e tem um detalhe curioso no ciclo: o cão é peça-chave.
O ciclo (e o papel do cão)
- O cão (e canídeos silvestres) é o hospedeiro definitivo: elimina o parasita nas fezes.
- A vaca se contamina comendo pasto, ração ou água contaminados por fezes de cão infectado.
- Uma vez infectada, a vaca passa o parasita pra cria na gestação (transmissão vertical), geração após geração, mesmo sem novo contato com cão.
- Por isso um rebanho pode manter a infecção "rodando" sozinho por anos.
Os sinais
- Aborto (geralmente no terço médio da gestação), o sinal mais comum.
- Reabsorção, natimortos e bezerros fracos ou com problemas nervosos.
- Vacas que repetem aborto em gestações diferentes.
- Muitas infectadas não abortam, mas passam pra cria, mantendo o problema.
Diagnóstico e controle
- Sorologia (exame de sangue) identifica as positivas, faça diante de surtos de aborto.
- Não há vacina eficaz nem tratamento consolidado no Brasil, o controle é de manejo.
- Controle o cão: evite que cães (e fezes) tenham acesso a cocho, ração, silagem e pasto; recolha restos de aborto e placenta (o cão que come isso se infecta e fecha o ciclo).
- Não use pra reprodução as filhas de vacas positivas em programas de controle (a transmissão é da mãe pra filha).
- Descarte estratégico das positivas conforme a gravidade.
A neosporose vive de dois descuidos: cão com acesso à comida do gado e restos de aborto largados no pasto (que o cão come e reinfecta tudo). Recolher placenta e fetos, manter cães longe do cocho e testar as vacas em surtos de aborto quebram o ciclo. Diante de abortos sem causa clara, peça a sorologia de neospora junto com lepto e brucelose.
