Rede social parou de ser passatempo no campo faz tempo. Ela virou vitrine de venda, cartão de visita para o laticínio, canal de contratação e a maior sala de aula de pecuária que já existiu. E quem entendeu isso primeiro está vendendo mais caro e comprando mais barato que o vizinho.
O caso que mostra o tamanho da mudança
A reportagem do AgFeed sobre a estratégia digital da John Deere no Brasil traz números que param qualquer discussão sobre "isso não é coisa séria".
A agência Jones, de São Paulo, montou uma operação com 80 influenciadores rurais para a marca. Entre eles, os irmãos Os Pimentinhas, produtores de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, que somam milhões de seguidores falando de máquina, lavoura e rotina de fazenda.
Não foi propaganda de máquina rodando em câmera lenta. Foi conteúdo em formato de novelinha, reality show com o Michel Teló que passou de dez milhões de visualizações na final, e uma série chamada Papo de Operador, que coloca no centro quem opera a máquina todo dia.
Uma comunicação que entretém, educa, orienta e informa.
Marcelo Chianello, CEO da Jones, ao AgFeedGuarde essa frase, porque ela é o resumo de tudo o que vem depois neste texto. O produtor não parou para assistir porque era anúncio. Parou porque era útil ou divertido, e a máquina apareceu no meio.
Por que isso interessa a quem tira leite
Você não vai vender 133 plantadeiras. Mas o mecanismo que fez aquilo funcionar é exatamente o mesmo que resolve problemas do dia a dia de uma fazenda leiteira, e ele não exige agência nem orçamento.
- Quem compra de você está no celular. O comprador de novilha, o dono do laticínio artesanal, o vizinho que quer arrendar pasto: todos rolam o feed à noite.
- Reputação passou a ser pública. Fazenda que mostra rotina, sanidade em dia e animal bem tratado vende mais fácil e negocia melhor.
- A informação técnica ficou acessível. Muito do que antes só chegava por consultoria hoje passa em vídeo curto.
- Contratar ficou mais fácil. Boa parte das vagas de campo hoje se resolve em grupo de WhatsApp e página local.
Os usos que dão retorno de verdade
- Vender animal sem intermediárioVídeo curto do animal andando, com número, idade, produção e histórico sanitário na descrição, alcança comprador que nunca passaria na sua porteira. Anúncio com dado registrado vale mais que anúncio com adjetivo.
- Vender leite e derivados diretoQueijo, doce e leite de venda local ganham muito com foto boa e rotina publicada. O cliente compra a história da fazenda junto com o produto.
- Comprar insumo melhorGrupo de produtores da região é onde aparece preço real de ração, sêmen e peça, e quem cobrou caro demais no mês passado.
- Aprender de graçaVeterinário, zootecnista e cooperativa publicam conteúdo técnico bom. Vale seguir os que mostram conta e resultado, não os que só mostram máquina nova.
- Contratar e ser encontradoFazenda conhecida na região atrai gente melhor pra trabalhar. Isso hoje se constrói em público.
O que funciona e o que não funciona
Funciona
- Mostrar a rotina real: ordenha, curral, parto, colheita
- Ensinar algo em trinta segundos
- Falar do erro que você cometeu e do que aprendeu
- Número na tela: litros, custo, ganho de peso
- Responder comentário e mensagem
- Constância, mesmo que seja duas vezes por semana
Não funciona
- Só anunciar quando tem animal pra vender
- Foto parada, sem contexto e sem legenda
- Copiar conteúdo dos outros
- Sumir por três meses e voltar do nada
- Prometer resultado que a fazenda não entrega
- Discussão política no perfil do negócio
Como começar sem virar produtor de conteúdo
A ideia não é largar o curral pra editar vídeo. É transformar em conteúdo aquilo que já acontece na fazenda.
- Grave o que você já faz. A ordenha, o nascimento, a chegada da ração. Trinta segundos bastam.
- Escolha um canal só pra começar. Instagram ou WhatsApp, aquele em que os seus clientes já estão.
- Separe o perfil pessoal do perfil da fazenda. Isso deixa o negócio apresentável para quem vai comprar de você.
- Fale a sua língua. Aquele caso dos Pimentinhas funciona porque são produtores de verdade falando como produtor. Imitar linguagem de cidade tira credibilidade.
- Publique o número, não só a foto. "Essa vaca deu 34 litros ontem" vale mais que qualquer legenda bonita.
O risco de ficar de fora
O produtor que não aparece não deixa de ser avaliado, ele só deixa de participar da conversa. Enquanto isso, o vizinho que publica vende a novilha antes, consegue o funcionário melhor e recebe o convite pra fornecer para o mercado local.
A lição do caso da John Deere não é sobre orçamento de agência. É sobre quem se dispôs a conversar com o campo na linguagem do campo, e ganhou espaço por isso. Essa parte não custa nada.
Dados e citações da reportagem De Teló aos Pimentinhas: o estilo Jones para vender a John Deere no universo digital, publicada pelo AgFeed.